Me devolva.
- Mia
- 21 de out. de 2023
- 2 min de leitura
Você lavou as mãos quando cometeu seu crime mais hediondo?
Você retornou ao local como uma miserável psicopata, coletando seu pequeno troféu?
O crime não foi perfeito, mas teve eficácia, e isso já se reflete nas cicatrizes nos meus pulsos.
A dor era amor; o sangue escorrendo da minha boca, as unhas cravadas na minha pele, as feridas na minha mente. Elas te deram a satisfação que precisava?
Anos me prendendo em um enigma sem saída, uma filha perfeita e um motivo para extravasar nela, através de castigos físicos, toda a dor que eu nunca havia causado a você.
Uma aberração que obedecia aos seus comandos e que foi treinada para se autodestruir.
Suas palavras me causavam náuseas; seus toques me davam calafrios.
Hoje tenho a idade que tinha quando me espancou pela primeira vez; hoje sou uma mãe, como você foi.
Nunca roubaria a inocência da minha criação dessa forma.
Conheci o inferno e dancei com um demônio cedo demais.
Cresci com medo de afeto, e quando alguém não me machuca, sinto medo.
Fujo porque meu teto é de vidro, e não suporto mais me cortar remendando.
Por que você não morre? Anos de terapia, tomando tantos comprimidos para afastar os pesadelos de você me sufocando e gargalhando ao dizer que seria melhor para todos se eu não existisse.
Não consigo sentir falta de alguém que eu nunca fui, porque nunca pude ser feliz sob seus comandos.
O que faço com toda a sujeira que você colocou na minha alma?
Você disse que toda dor não era suficiente para mim, e cresci tolerante demais à sensação.
Nunca quebro, e isso me tortura.
Por que não quebro?
Por que não cesso essa dor? Por que continuo lutando quando você já venceu toda essa guerra?
Vivo pela adrenalina de ser melhor que você.
Devolva-me toda a alegria que um dia me pertenceu; nunca foi sua para destruir.
Deus esqueceu que eu também existia? Uma criança não merecia...
Onde ficam os anjos da guarda quando mães tentam afogar seus bebês?
Onde estavam todos que defendem a vida quando os roxos no meu corpo e as visões na minha mente, tão frágil e franzina, começaram a aparecer?
Quando foi permitido ensinar a uma criança que sofrer nas mãos maternas era padecer num paraíso?
Odiar não seria o bastante.
Te rejeito, revogo sua maternidade, repilo seu amor doentio.
Nunca fui sua para aniquilar.
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